É comum recebermos pacientes assustados relatando que o coração “errou uma batida” ou “disparou do nada”. Na maioria das vezes, o susto é maior que o risco. Porém, como explicamos em nosso guia completo de Cardiologia, a distinção entre uma palpitação inofensiva e um defeito elétrico grave só pode ser feita através de exames específicos.
Como funciona o ritmo do coração? (A Analogia da Orquestra)
Para entender a arritmia, imagine que o coração é uma orquestra. Para que a música (o batimento) saia perfeita, é necessário um maestro ditando o ritmo.
No coração, esse maestro é o Nó Sinusal, um conjunto de células na parte superior que gera impulsos elétricos. Esse impulso viaja por “fios” naturais (o sistema de condução) fazendo o coração contrair de forma sincronizada: primeiro os átrios (parte de cima), depois os ventrículos (parte de baixo).
A arritmia acontece quando:
- O maestro (Nó Sinusal) perde o controle;
- Surge um “maestro impostor” (um foco ectópico) em outro lugar do coração tentando ditar o ritmo;
- O “fio” está bloqueado ou em curto-circuito.
Os Principais Tipos de Arritmia
Classificamos as arritmias principalmente pela velocidade e origem. Conheça as mais comuns:
1. Taquicardias (Coração Acelerado)
Ocorre quando a frequência cardíaca em repouso ultrapassa 100 batimentos por minuto (bpm). Nem sempre é doença (correr ou levar um susto causa taquicardia normal), mas quando ocorre sem motivo, pode ser:
- Fibrilação Atrial (FA): É a arritmia sustentada mais comum no mundo. Os átrios tremem em vez de bater, fazendo o sangue ficar estagnado e formar coágulos. É uma das maiores causas de AVC (Derrame).
- Taquicardia Supraventricular: Episódios súbitos onde o coração dispara (pode chegar a 180-200 bpm) e para de repente. Geralmente benigna, mas muito desconfortável.
- Taquicardia Ventricular: Uma emergência médica grave que ocorre nos ventrículos e pode levar à parada cardíaca se não revertida.
2. Bradicardias (Coração Lento)
Ocorre quando a frequência cai para menos de 60 bpm. É comum em atletas de alta performance (o coração é tão forte que precisa bater menos). Porém, em idosos, pode indicar falha no sistema elétrico, causando cansaço e desmaios.
3. Extrassístoles (A “Batida Falhada”)
É a sensação de que o coração deu um “tranco” ou uma pausa. Geralmente é uma batida antecipada fora do ritmo. Na grande maioria dos casos, são benignas e relacionadas a estresse, cafeína ou noites mal dormidas.
Sintomas: Quando se preocupar?
O sintoma mais clássico é a palpitação (percepção incômoda do batimento). Mas a arritmia pode se manifestar de outras formas, algumas perigosas.
| Sintoma | O que está acontecendo? | Gravidade |
|---|---|---|
| Palpitação no pescoço | Sensação de “batedeira” visível. | Moderada (Incômoda). |
| Tontura ou “Escurecimento” da visão | O coração não está bombeando sangue suficiente para o cérebro. | Alta (Sinal de alerta). |
| Síncope (Desmaio) | Interrupção temporária do fluxo cerebral. | Urgentíssima (Risco de vida). |
| Dor no peito | O coração acelerado consome muito oxigênio (angina). | Alta (Pode simular infarto). |
Nota do Especialista (Information Gain): Hoje em dia, muitos pacientes chegam ao consultório com alertas de seus Smartwatches (Apple Watch, etc). Se o seu relógio indicou “Fibrilação Atrial” ou frequência muito alta/baixa, leve isso a sério. Estudos mostram que esses dispositivos têm alta acurácia para triagem inicial.
Como descobrir se tenho Arritmia?
Muitas vezes a arritmia é intermitente: ela aparece em casa, mas desaparece quando você chega ao médico. Por isso, o Eletrocardiograma (ECG) de repouso às vezes não basta. Utilizamos exames de longa duração:
- Holter 24h: Um gravador que monitora o coração por um dia inteiro enquanto você faz suas atividades.
- Looper (Monitor de Eventos): Aparelho que fica com o paciente por semanas e só grava quando acionado durante o sintoma.
- Estudo Eletrofisiológico: Um cateterismo especial que “mapeia” a parte elétrica por dentro do coração para achar o foco do curto-circuito.
Arritmia tem cura? Tratamentos Modernos
Dependendo do tipo, a arritmia tem controle ou até cura definitiva.
1. Medicamentos (Antiarrítmicos)
Remédios como Betabloqueadores e Bloqueadores de Canais de Cálcio ajudam a “acalmar” o coração e regular o ritmo. Em casos de Fibrilação Atrial, o uso de Anticoagulantes é obrigatório para evitar AVC.
2. Ablação por Cateter (A “Cauterização”)
É um procedimento minimamente invasivo onde um cateter vai até o ponto exato do coração que está causando a arritmia e aplica uma energia (radiofrequência ou congelamento) para “queimar” aquele foco. É a cura definitiva para muitas taquicardias.
3. Dispositivos Implantáveis (Marcapasso e CDI)
- Marcapasso: Usado para bradicardias. Ele monitora o coração e, se o batimento falhar, ele envia um impulso elétrico para garantir a batida.
- CDI (Desfibrilador Implantável): Usado em pacientes com risco de morte súbita. Se o coração parar ou entrar em ritmo fatal, o aparelho dá um choque interno para “resetar” o ritmo.
Perguntas Frequentes sobre Arritmias
1. Ansiedade causa arritmia?
A ansiedade libera adrenalina, que pode causar taquicardia sinusal (aceleração do ritmo normal) ou extrassístoles. Embora a sensação seja ruim, geralmente não é uma arritmia maligna. O tratamento foca no controle da ansiedade.
2. Café é proibido para quem tem arritmia?
Nem sempre. Estudos recentes mostram que o consumo moderado de café não aumenta o risco de arritmias na maioria das pessoas. Porém, alguns indivíduos têm sensibilidade específica. Se você sente palpitações após tomar café, deve evitar.
3. A Fibrilação Atrial é perigosa?
Sim, principalmente pelo risco de AVC (Derrame). Como o sangue fica parado nos átrios, ele coagula. Se esse coágulo se soltar, vai direto para o cérebro. Por isso, muitos pacientes com FA precisam tomar anticoagulantes pelo resto da vida.
4. Posso fazer exercícios tendo arritmia?
Depende do tipo e do controle. Pacientes com arritmias benignas ou controladas são encorajados a se exercitar. Já arritmias graves ou desencadeadas pelo esforço exigem avaliação criteriosa antes da liberação.
5. Qual a diferença entre Marcapasso e Stent?
São para problemas totalmente diferentes. O Stent é um “tubinho” para abrir artérias entupidas (problema de encanamento/infarto). O Marcapasso é uma bateria para corrigir o ritmo lento (problema elétrico/arritmia).
Referências Bibliográficas
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- Hindricks G, Potpara T, Dagres N, et al. 2020 ESC Guidelines for the diagnosis and management of atrial fibrillation developed in collaboration with the EACTS. European Heart Journal. 2021;42(5):373–498.
- January CT, Wann LS, Calkins H, et al. 2019 AHA/ACC/HRS Focused Update of the 2014 AHA/ACC/HRS Guideline for the Management of Patients With Atrial Fibrillation. Circulation. 2019;140(2):e125-e151.



