A Epilepsia Infantil é uma doença neurológica crônica caracterizada pela recorrência de crises convulsivas (descargas elétricas anormais no cérebro), que podem se manifestar como abalos motores generalizados, rigidez ou simples “desligamentos” de atenção. O tratamento é indicado para evitar danos neuronais e acidentes, permitindo que a criança frequente a escola e brinque com segurança.

Presenciar uma crise convulsiva em um filho é, sem dúvida, uma das experiências mais traumáticas para os pais. O sentimento de impotência é avassalador. Porém, como enfatizamos em nosso guia completo de Neuropediatria, a epilepsia é uma condição tratável e, na maioria das vezes, benigna. Saber exatamente o que fazer (e o que NÃO fazer) durante a crise é o que garante a segurança da criança.

O que acontece no cérebro durante uma crise?

Imagine o cérebro como uma grande rede elétrica complexa e organizada. Em condições normais, os neurônios “conversam” entre si através de impulsos elétricos controlados. Na epilepsia, ocorre uma espécie de curto-circuito.

Um grupo de neurônios começa a disparar sinais elétricos de forma excessiva e sincronizada. Dependendo de onde esse curto acontece, a manifestação muda:

  • Crise Generalizada: O curto atinge o cérebro todo. A criança perde a consciência e o corpo todo treme.
  • Crise Focal: O curto fica restrito a uma área (ex: área motora da mão). A criança pode ficar acordada e apenas um braço tremer, ou sentir um cheiro estranho (se for na área olfativa).

Convulsão Febril: O susto mais comum (Não é Epilepsia!)

Antes de falar de epilepsia, precisamos diferenciar da Convulsão Febril. Ela ocorre em crianças de 6 meses a 5 anos, desencadeada pela subida rápida da temperatura (febre).

É perigoso? Geralmente não. Embora a cena seja assustadora (olhos virados, boca roxa), a crise febril simples dura poucos minutos, para sozinha e não deixa sequelas neurológicas. A criança que tem convulsão febril NÃO é necessariamente epiléptica e, na maioria das vezes, não precisará tomar remédio controlado para o resto da vida.

Os Tipos de Crise: Nem sempre a criança cai no chão

O estereótipo da pessoa se batendo no chão e espumando pela boca (Tônico-Clônica Generalizada) é apenas um tipo. Existem outros mais sutis:

1. Crise de Ausência (O “Pequeno Mal”)

A criança para o que está fazendo, olha para o nada, pisca os olhos rapidamente ou faz movimentos de mastigação. Dura segundos e ela volta como se nada tivesse acontecido.

O Perigo: É frequentemente confundida com TDAH (desatenção). A professora diz que o aluno “vive no mundo da lua”, mas na verdade ele está tendo dezenas de microconvulsões por dia, perdendo conteúdo escolar.

2. Crise Atônica (Drop Attack)

A criança perde o tônus muscular subitamente e cai “igual a um saco de batatas”. O risco aqui é o trauma craniano pela queda. Crianças com esse tipo de epilepsia muitas vezes precisam usar capacetes de proteção.

3. Espasmos Infantis (Síndrome de West)

Ocorre em bebês. São movimentos bruscos de dobrar o corpo para frente (como um abdominal), repetidos em série. É uma emergência neurológica, pois pode causar atraso grave no desenvolvimento se não tratada imediatamente.


PROTOCOLO DE EMERGÊNCIA: O que fazer na crise?

Se seu filho tiver uma convulsão, mantenha a calma (dentro do possível) e siga este passo a passo. Imprima e deixe na geladeira ou envie para a escola.

AÇÃO CORRETA (FAÇA) AÇÃO ERRADA (NUNCA FAÇA)
1. Deite a criança de lado: Isso evita que ela engasgue com a saliva ou vômito. NUNCA coloque a mão na boca: O mito de “enrolar a língua” não existe. A língua não enrola. Você vai perder um dedo ou machucar os dentes da criança.
2. Proteja a cabeça: Coloque uma almofada ou sua mão embaixo da cabeça para não bater no chão. NÃO segure os braços: Tentar conter os movimentos à força pode causar fraturas ou luxações. Deixe o corpo tremer.
3. Marque o tempo: Olhe no relógio. A maioria das crises dura menos de 2 minutos. NÃO jogue água ou dê tapas: A criança não está desmaiada por pressão baixa, é uma descarga elétrica. Isso não ajuda.
4. Afrouxe as roupas: Tire óculos, abra botões da camisa. NÃO dê remédio ou água pela boca enquanto ela estiver inconsciente. Risco de aspiração para o pulmão.

Nota do Especialista (Information Gain): Quando correr para o hospital? Se a crise durar mais de 5 minutos (Estado de Mal Epiléptico), se a criança tiver uma crise seguida da outra sem acordar, ou se for a primeira crise da vida dela. Nesses casos, chame o SAMU (192).


Como confirmamos o diagnóstico?

O diagnóstico é feito pela história clínica (vídeos da crise ajudam muito!) e exames complementares:

  • Eletroencefalograma (EEG): Eletrodos no couro cabeludo registram as ondas cerebrais. Procuramos pontas ou ondas agudas que indiquem o foco epiléptico.
  • Ressonância Magnética: Para ver se existe alguma cicatriz, tumor ou má-formação no cérebro causando as crises.

A vida com Epilepsia: Tratamento e Cura

O objetivo do tratamento é: Crise Zero com o mínimo de efeitos colaterais.

1. Medicamentos Antiepilépticos (DAE)

Cerca de 70% das crianças controlam totalmente as crises com apenas um medicamento (monoterapia). Exemplos comuns incluem Valproato, Carbamazepina, Levetiracetam e Lamotrigina.

2. Dieta Cetogênica

Para casos difíceis (refratários), onde os remédios não funcionam, uma dieta rica em gorduras e quase zero carboidratos pode forçar o cérebro a usar corpos cetônicos como energia, o que tem efeito anticonvulsivante potente.

3. Canabidiol (CBD)

O uso medicinal da Cannabis é uma realidade regulamentada para tipos específicos de epilepsia grave (como Dravet e Lennox-Gastaut). Não é “maconha”, é um óleo purificado sem o componente alucinógeno (THC), prescrito pelo médico.

4. Cirurgia de Epilepsia

Se o foco da crise vier de uma lesão pequena e operável, a cirurgia pode curar a epilepsia definitivamente.


Perguntas Frequentes sobre Epilepsia

1. A criança pode engolir a língua e morrer sufocada?

Não. Isso é fisicamente impossível, pois a língua é presa no fundo da boca. O que acontece é o relaxamento da mandíbula, fazendo a língua cair para trás e fazer barulho (ronco). Apenas virar a criança de lado resolve.

2. Quem tem epilepsia pode jogar videogame?

A maioria pode. A epilepsia fotossensível (desencadeada por luzes piscantes) corresponde a apenas 3-5% dos casos. Para esses pacientes, recomenda-se telas com filtro, ambientes iluminados e limitar o tempo de jogo. O EEG com fotoestimulação ajuda a definir esse risco.

3. Pode praticar natação?

Sim, mas nunca sozinho. O risco de ter uma crise na água e afogar-se existe. A criança deve estar sempre supervisionada por um adulto que saiba nadar e saiba que ela tem epilepsia. O chuveiro é mais seguro que a banheira.

4. A medicação deixa a criança “lenta” na escola?

Alguns medicamentos antigos (como Fenobarbital) podiam causar sonolência e lentidão. As drogas modernas (Levetiracetam, Lamotrigina) têm muito menos efeitos cognitivos. Se a criança estiver muito lenta, converse com o médico para ajuste de dose; não suspenda o remédio.

5. Epilepsia tem cura ou é para sempre?

Muitas síndromes epilépticas da infância (como a Epilepsia Rolândica) são “idade-dependentes”, ou seja, a criança cresce, o cérebro amadurece e a epilepsia desaparece na adolescência, permitindo a retirada da medicação.


Referências Bibliográficas

  • Fisher RS, Acevedo C, Arzimanoglou A, et al. ILAE Official Report: A practical clinical definition of epilepsy. Epilepsia. 2014;55(4):475-482.
  • Guia de Doenças Neuromusculares e Neurológicas na Infância. Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil.
  • Wirrell EC, et al. International League Against Epilepsy classification and definition of epilepsy syndromes with onset in neonates and infants: Position statement by the ILAE Task Force on Nosology and Definitions. Epilepsia. 2022.
  • NICE Guideline. Epilepsies in children, young people and adults. National Institute for Health and Care Excellence; 2022.
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A Epilepsia Infantil é uma doença neurológica crônica caracterizada pela recorrência de crises convulsivas (descargas elétricas anormais no cérebro), que podem se manifestar como abalos motores generalizados, rigidez ou simples “desligamentos” de atenção. O tratamento é indicado para evitar danos neuronais e acidentes, permitindo que a criança frequente a escola e brinque com segurança.

Presenciar uma crise convulsiva em um filho é, sem dúvida, uma das experiências mais traumáticas para os pais. O sentimento de impotência é avassalador. Porém, como enfatizamos em nosso guia completo de Neuropediatria, a epilepsia é uma condição tratável e, na maioria das vezes, benigna. Saber exatamente o que fazer (e o que NÃO fazer) durante a crise é o que garante a segurança da criança.

O que acontece no cérebro durante uma crise?

Imagine o cérebro como uma grande rede elétrica complexa e organizada. Em condições normais, os neurônios “conversam” entre si através de impulsos elétricos controlados. Na epilepsia, ocorre uma espécie de curto-circuito.

Um grupo de neurônios começa a disparar sinais elétricos de forma excessiva e sincronizada. Dependendo de onde esse curto acontece, a manifestação muda:

  • Crise Generalizada: O curto atinge o cérebro todo. A criança perde a consciência e o corpo todo treme.
  • Crise Focal: O curto fica restrito a uma área (ex: área motora da mão). A criança pode ficar acordada e apenas um braço tremer, ou sentir um cheiro estranho (se for na área olfativa).

Convulsão Febril: O susto mais comum (Não é Epilepsia!)

Antes de falar de epilepsia, precisamos diferenciar da Convulsão Febril. Ela ocorre em crianças de 6 meses a 5 anos, desencadeada pela subida rápida da temperatura (febre).

É perigoso? Geralmente não. Embora a cena seja assustadora (olhos virados, boca roxa), a crise febril simples dura poucos minutos, para sozinha e não deixa sequelas neurológicas. A criança que tem convulsão febril NÃO é necessariamente epiléptica e, na maioria das vezes, não precisará tomar remédio controlado para o resto da vida.

Os Tipos de Crise: Nem sempre a criança cai no chão

O estereótipo da pessoa se batendo no chão e espumando pela boca (Tônico-Clônica Generalizada) é apenas um tipo. Existem outros mais sutis:

1. Crise de Ausência (O “Pequeno Mal”)

A criança para o que está fazendo, olha para o nada, pisca os olhos rapidamente ou faz movimentos de mastigação. Dura segundos e ela volta como se nada tivesse acontecido.

O Perigo: É frequentemente confundida com TDAH (desatenção). A professora diz que o aluno “vive no mundo da lua”, mas na verdade ele está tendo dezenas de microconvulsões por dia, perdendo conteúdo escolar.

2. Crise Atônica (Drop Attack)

A criança perde o tônus muscular subitamente e cai “igual a um saco de batatas”. O risco aqui é o trauma craniano pela queda. Crianças com esse tipo de epilepsia muitas vezes precisam usar capacetes de proteção.

3. Espasmos Infantis (Síndrome de West)

Ocorre em bebês. São movimentos bruscos de dobrar o corpo para frente (como um abdominal), repetidos em série. É uma emergência neurológica, pois pode causar atraso grave no desenvolvimento se não tratada imediatamente.


PROTOCOLO DE EMERGÊNCIA: O que fazer na crise?

Se seu filho tiver uma convulsão, mantenha a calma (dentro do possível) e siga este passo a passo. Imprima e deixe na geladeira ou envie para a escola.

AÇÃO CORRETA (FAÇA) AÇÃO ERRADA (NUNCA FAÇA)
1. Deite a criança de lado: Isso evita que ela engasgue com a saliva ou vômito. NUNCA coloque a mão na boca: O mito de “enrolar a língua” não existe. A língua não enrola. Você vai perder um dedo ou machucar os dentes da criança.
2. Proteja a cabeça: Coloque uma almofada ou sua mão embaixo da cabeça para não bater no chão. NÃO segure os braços: Tentar conter os movimentos à força pode causar fraturas ou luxações. Deixe o corpo tremer.
3. Marque o tempo: Olhe no relógio. A maioria das crises dura menos de 2 minutos. NÃO jogue água ou dê tapas: A criança não está desmaiada por pressão baixa, é uma descarga elétrica. Isso não ajuda.
4. Afrouxe as roupas: Tire óculos, abra botões da camisa. NÃO dê remédio ou água pela boca enquanto ela estiver inconsciente. Risco de aspiração para o pulmão.

Nota do Especialista (Information Gain): Quando correr para o hospital? Se a crise durar mais de 5 minutos (Estado de Mal Epiléptico), se a criança tiver uma crise seguida da outra sem acordar, ou se for a primeira crise da vida dela. Nesses casos, chame o SAMU (192).


Como confirmamos o diagnóstico?

O diagnóstico é feito pela história clínica (vídeos da crise ajudam muito!) e exames complementares:

  • Eletroencefalograma (EEG): Eletrodos no couro cabeludo registram as ondas cerebrais. Procuramos pontas ou ondas agudas que indiquem o foco epiléptico.
  • Ressonância Magnética: Para ver se existe alguma cicatriz, tumor ou má-formação no cérebro causando as crises.

A vida com Epilepsia: Tratamento e Cura

O objetivo do tratamento é: Crise Zero com o mínimo de efeitos colaterais.

1. Medicamentos Antiepilépticos (DAE)

Cerca de 70% das crianças controlam totalmente as crises com apenas um medicamento (monoterapia). Exemplos comuns incluem Valproato, Carbamazepina, Levetiracetam e Lamotrigina.

2. Dieta Cetogênica

Para casos difíceis (refratários), onde os remédios não funcionam, uma dieta rica em gorduras e quase zero carboidratos pode forçar o cérebro a usar corpos cetônicos como energia, o que tem efeito anticonvulsivante potente.

3. Canabidiol (CBD)

O uso medicinal da Cannabis é uma realidade regulamentada para tipos específicos de epilepsia grave (como Dravet e Lennox-Gastaut). Não é “maconha”, é um óleo purificado sem o componente alucinógeno (THC), prescrito pelo médico.

4. Cirurgia de Epilepsia

Se o foco da crise vier de uma lesão pequena e operável, a cirurgia pode curar a epilepsia definitivamente.


Perguntas Frequentes sobre Epilepsia

1. A criança pode engolir a língua e morrer sufocada?

Não. Isso é fisicamente impossível, pois a língua é presa no fundo da boca. O que acontece é o relaxamento da mandíbula, fazendo a língua cair para trás e fazer barulho (ronco). Apenas virar a criança de lado resolve.

2. Quem tem epilepsia pode jogar videogame?

A maioria pode. A epilepsia fotossensível (desencadeada por luzes piscantes) corresponde a apenas 3-5% dos casos. Para esses pacientes, recomenda-se telas com filtro, ambientes iluminados e limitar o tempo de jogo. O EEG com fotoestimulação ajuda a definir esse risco.

3. Pode praticar natação?

Sim, mas nunca sozinho. O risco de ter uma crise na água e afogar-se existe. A criança deve estar sempre supervisionada por um adulto que saiba nadar e saiba que ela tem epilepsia. O chuveiro é mais seguro que a banheira.

4. A medicação deixa a criança “lenta” na escola?

Alguns medicamentos antigos (como Fenobarbital) podiam causar sonolência e lentidão. As drogas modernas (Levetiracetam, Lamotrigina) têm muito menos efeitos cognitivos. Se a criança estiver muito lenta, converse com o médico para ajuste de dose; não suspenda o remédio.

5. Epilepsia tem cura ou é para sempre?

Muitas síndromes epilépticas da infância (como a Epilepsia Rolândica) são “idade-dependentes”, ou seja, a criança cresce, o cérebro amadurece e a epilepsia desaparece na adolescência, permitindo a retirada da medicação.


Referências Bibliográficas

  • Fisher RS, Acevedo C, Arzimanoglou A, et al. ILAE Official Report: A practical clinical definition of epilepsy. Epilepsia. 2014;55(4):475-482.
  • Guia de Doenças Neuromusculares e Neurológicas na Infância. Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil.
  • Wirrell EC, et al. International League Against Epilepsy classification and definition of epilepsy syndromes with onset in neonates and infants: Position statement by the ILAE Task Force on Nosology and Definitions. Epilepsia. 2022.
  • NICE Guideline. Epilepsies in children, young people and adults. National Institute for Health and Care Excellence; 2022.
Convulsão e Epilepsia na Infância: O Que Fazer e Como Tratar?

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